quarta-feira, 30 de julho de 2008

Porquê? Humm… porquê? I

Era e continua, certamente, a ser uma das minhas palavras preferidas: porquê. (Os advérbios em geral e os de modo em particular são outras das minhas palavras favoritas, não me perguntem é porquê, porque não saberia responder. Só sei que sempre que posso, zás, lá introduzo um. Manias...) Sim, porquê?

Aos 6, 7 anos a melhor professora que alguma vez tive, a da primária – honra seja feita à professora Luísa que bem podia ser santificada – já me apontava como a Mafaldinha da turma, não fosse eu já muito contestatária. “Porque é que os rios descem para o mar e não é o mar a subir para os rios? Porque é que Espanha tem um rei e nós não? Porque é que tenho de começar uma resposta a uma pergunta que comece por porquê com um porque?”. Em casa não me lembro muito bem, mas devia ser a mesma coisa, isto porque, a certa altura, o meu pai deu-me um livro cujo título era Porquê?. Hoje lembrei-me dele com saudades e fui procurá-lo. No caixote da Bela Adormecida, da Cinderela, de alguns Astérix, dos Contos do Gato Charabiá, da Menina do Mar, da Fada Ariana, dos livros da Disney, das colecções Bem Crescer Bem Viver e da Condessa de Ségur, lá encontrei o Porquê?, aquela que deve ter sido a minha bíblia durante alguns anos. (Que nostalgia me assolou a mexer naqueles livros todos…)

Ao folhear as 188 páginas do livro encontrei 500 questões e 1000 respostas que me satisfizeram há uns 20 anos atrás. Hoje, para além de ter muitos mais porquês para ver respondidos, algumas respostas não me pareceram as mais correctas. Outras ainda extremamente lógicas e umas quantas incompletas. Senão vejamos os seguintes exemplos.

“Pergunta 52 – Porque se faz casacos com peles de animais? Há animais que vivem em regiões muito frias, protegidos apenas pelo pêlo, que é muito quente. Daí surgiu a ideia de fazer com a pele desses animais casacos de Inverno. Por vezes custam muito caro, mas muitas mulheres compram-nos pela sua beleza e real protecção.” E podiam ter escrito um pouco mais de yada, yada, yada, que no fim eu responderia a isto muito melhor dizendo apenas: porque há pessoas que às vezes não pensam, porque se não lhes pesa na consciência ter um animal morto a embelezar os ombros, porque não matam os seus caniches ou os seus são bernardos e os pões às costas? Sempre ficava mais barato. A burrice humana mexe-me com os nervos de uma maneira inexplicável.

"Pergunta 147: Porque se pode beber sumo de uva à vontade e vinho não? Não tendo fermentado, o sumo de uva não contém álcool. O álcool contido no vinho é nocivo à saúde, principalmente à das crianças, ao passo que o sumo de uva é delicioso e nutritivo. (…) O álcool é um alimento de reduzido valor nutritivo e a sua ingestão repetida converte-o num veneno que prejudica o organismo, destrói lentamente as células e age sobre o sistema nervoso.” Calma, eu não me ando a envenenar. E garanto-vos que se não fosse o absinto, muitos dos génios literários que nos enchem as prateleiras nunca lá tinham chegado. Já para não falar nas inúmeras noites divertidíssimas à volta de packs de minis em casa do meu Migas e da minha Bé! Corre o boato, há uns anos para cá, que eu abri 3 garrafas de vinho num espaço de mais ou menos 20 minutos. As más línguas dizem que abri uma e enchi o copo. Acabei de beber esse copo e abri outra garrafa. Enchi outra vez o copo e quando o terminei, não satisfeita abri outra garrafa de vinho. Das três uma, ou estão a mentir, ou apanhei uma borracheira tal que já não via as garrafas, ou eu sou uma pessoa muito chique, só bebo um copo por garrafa de vinho. De qualquer das formas, crianças garanto-vos que o vinho não é veneno!

“Pergunta 156: Porque dizemos que “ não há rosas sem espinhos”? Ao apanhar uma rosa, encantados pela sua beleza e pelo perfume, podemos picar-nos nos seus espinhos. Mesmo com o que é bom, devemos ser cuidadosos. Assim, se comermos exageradamente chocolate, que é bom, podemos ficar doentes.” Team, não te faz lembrar nada? Só te falta transformar as tuas analogias em ditados populares. Garanto-te que tens futuro! ;)

“Pergunta 160: A Terra já existia antes de haver gente?” A resposta é a que todos nós já conhecemos, mas agora coloco eu duas questões: porque é que havia Terra se não havia gente? E para que é que ela existia se eu não estava cá, por exemplo? LOOOOOL. Quando digo eu, digo vocês, os que me rodeiam, não estou a ser assim tão egocêntrica, pois não? E ainda pergunto mais: quando eu morrer fará sentido a Terra continuar a existir? Humm… não me parece. Aliás não percebo como o mundo conseguiu chegar até 1980 sem mim, não percebo, simplesmente transcende-me.

“Pergunta 204: Porque crescemos? Crescemos durante muito tempo para deixarmos de ser crianças e transformarmo-nos em pessoas adultas com filhos, profissão e responsabilidades.” Ainda hoje meia volta lá estou eu sempre a fazer esta pergunta a mim própria, porquê? Porque é que temos de crescer? Eu adoro responsabilidades, adoro que me ponham um peso em cima para carregar, é sinal que confiam em mim e que sabem que aguento bem esse peso, mas daí a crescer… Estou a exagerar, obviamente (estão a ver? Mais um advérbio). Logicamente que prefiro os meus 28 aos meus 14, primeiro porque me lembro quão bons foram os 14, depois porque os 14 seguintes trouxeram um conhecimento impossível de adquirir se não passasse pelos 16, 21, 25 e 27 e ainda porque sei que os 28 mais que aí vêm serão os melhores que poderia ter. O futuro será bom, tenho a certeza, mas eu sou uma saudosista e crescer implica passar de um estádio ao outro sem que se possa voltar atrás. Queria tanto ser omnipresente e omnitemporal. (A parte dos filhos é que continua a não me agradar muito, prefiro afilhados e "sobrinhos")

“Pergunta 205: Porque choramos quando estamos tristes? (…) Uma notícia má, uma dor ou uma contrariedade desencadeiam um conjunto de reacções emocionais. Reflexos elaborados pelos núcleos cinzentos centrais do cérebro provocam a emissão de lágrimas, por vezes acompanhadas de gritos e tremores. Uma outra região do cérebro, o córtex, sede da vontade, permite controlar as manifestações de sofrimento.” E eu sou doutorada no córtex… ou não. A questão devia ser: porque choramos e não porque choramos quando estamos tristes. Eu choro de felicidade e de tristeza. Em relação à primeira não me importo, já em relação à segunda…dá-me cá uma raiva. Choro de cansaço e de nervos, de arrependimento e de ansiedade. Mas sabem que mais? Rio milhões de vezes mais por cada vez que choro, porque a Vida é Bela! Finalizo com uma questão que me suscita alguma curiosidade: porque é que, ás vezes, quando estamos tristes não conseguimos chorar? A gerência agradece respostas.

“Pergunta 221: Porque se diz “olho vivo”?” Para não nos esquecermos de ir ver o Steve Carell a partir de dia 7 de Agosto, num cinema próximo de nós! AH AH AH AH AH!

“Pergunta 223: Porque sentimos calor quando corremos? (…) O esforço produzido pelos músculos durante a corrida provoca um aumento do consumo de energia no organismo. O coração bate mais depressa, a oxigenação do sangue é acelerada, as oxidações são mais rápidas. Há então aumento da produção de calor.” Perdi-me nesta explicação toda. Eles estavam a falar de quê? Correr? De repente pareceu-me que estavam a falar de outra coisa…

“Pergunta 274: Porque queima o sol a pele?” No mínimo esta pergunta é para gozar comigo. Queima? Não tenho dado conta. Cá para mim o sol é racista e se foi Deus que criou o Sol, Deus então também é racista. Por estas e por outras é que eu nunca poderia acreditar em tal entidade. A pergunta devia ser formulada diferentemente: Porque é que o sol demora umas três semanas a queimar a pele de Pinheirinhas, humm, porquê? Nós branquinhas sofremos tanto…

“Pergunta 327: Para que servem os pára-raios?” Não servem para nada, pelo menos é o que o Patrick e toda a população de Elmo pensa (desculpem, mas esta era só para quem vê o Men in Trees. Não resisti.).

“Pergunta 409: Porque é que hoje não é ontem? O tempo corre de maneira irreversível, do passado para o futuro. (…)” A pergunta pode parecer estúpida, mas eu até acho que faz algum sentido. Claro que a resposta desfaz qualquer anterior lógica da questão, no entanto, esta também não é senão emocional. Pois reparem bem. Porque é que gostaríamos que hoje fosse ontem? Porque sentimos falta de alguma coisa, porque gostaríamos de mais umas horas para viver alguma situação, porque o dia correu tão bem que gostaríamos de o repetir ou porque simplesmente poderíamos corrigir ou acrescentar alguma coisa a algo. Este é o exemplo perfeito de como o córtex is just a tiny little part of our being. O meu racionalismo diz duhhh quando leio esta pergunta, mas depois… tudo o resto se interroga: porque é que hoje não é ontem?

“Pergunta 445: Porque é que no Natal se ornamenta a casa com um pinheiro enfeitado?” Qualquer explicação é inútil, porque os PINHEIROS são nossos amigos :) e nunca, mas nunca se devia ter começado tal tradição. Eu não gosto de servir de ornamento, tenho pouca vocação para enfeite.

“Pergunta 447: Porque é que se diz mentiras no 1º dia de Abril?” A resposta que é dada relaciona-se com a mudança de calendário. No entanto, parece que a mais lógica será a seguinte: para disfarçar todas as outras que se contam durante o resto do ano. Quantas vezes mentimos durante o ano? Por mim falo e afirmo que muitas, na maioria das ocasiões, são mentiras pequeninas que não ferem ninguém. As piores são as que contamos a nós próprios. Porque o fazemos? Porque por vezes precisamos, porque adiamos um assunto mais um pouco, porque é mais confortável, para não darmos grandes explicações, porque a verdade nem sempre é a melhor opção. Mentira. A verdade é sempre a melhor opção, mas se calhar hoje não é dia de a manifestar. (Nem de propósito, o Windows Media Player toca a Modern Way dos Kaiser Chiefs cujo refrão canta assim: This is the modern way, Faking it everyday, Taking it as we come, We're not the only ones, Is that what we used to say, That this is the modern way?)

“Pergunta 464: Porque se beijam as pessoas? É uma maneira de mostrar às pessoas que se gosta delas. É também um meio de agradecer, ou simplesmente uma forma de polidez. Mas é realmente um prazer beijar as pessoas de quem gostamos.” Pois… vamos lá esmiuçar isto mais um pouco então. Obviamente que este é um livro para crianças e não convinha que se pusessem com grandes dissertações sobre os vários significados de um beijo. Sim, na maioria das vezes a explicação vai recair sobre o afecto que temos por alguém e a sua manifestação. Mas nem só isso é um beijo. Por exemplo, os autores do livro nunca poderiam dizer que às vezes um beijo pode significar…nada, rigorosamente nada, senão arriscavam-se a que alguém imediatamente perguntasse: então porque se beija? E aí era o cabo dos trabalhos, porque até eu que já beijei sem significado, não sei bem como o explicar e é aí que reside o verdadeiro problema. E mais uma vez estou a mentir. Claro que não beijei sem significado, a questão é que não me agrada de todo o significado que me levou a beijar e por isso mesmo prefiro pensar que o fiz sem significado. Digam lá a verdade: alguma vez conheceram alguém que construísse e destruísse teorias tão rapidamente como a Pinheirinha?

“Pergunta 480: Porque fazem os homens a barba todas as manhãs? A barba dos homens cresce também de noite. Assim, eles barbeiam-se de manhã para a fazerem desaparecer, para ficarem com ar limpo e pele macia e para não arranharem as pessoas que os beijam.” Palavras sábias, se bem que a questão que se impunha seria porque é que nem todos os homens fazem a barba todos, todos, todos os dias, humm? Ai, ai, vamos lá ver!

As perguntas que tenho para um novo livro são outras. Aquelas que todos nós temos, as que se não temos vamos ter um dia destes, as que já foram feitas por alguém algum dia, as mais banais das banais provavelmente. Mas isso só no Porquê? Humm… porquê? I I. To be continued…

sexta-feira, 27 de junho de 2008

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Os Olhos dos Outros

Os olhos de quem me interessa, não quaisquer olhos. Os teus e os teus. Os dele e os dela. Os vossos e também os outros. No fim, os meus que vêem os vossos.

Só vejo os que quero ver. Aqueles que me dizem que tenho um feitiozinho tramado, os castanhos que me apontam um coração do tamanho do mundo, os mais pequeninos que me chamam de preguiçosa, os que choram a rir com a quantidade de disparates engraçados que eu sou capaz de produzir.

Gosto dos olhos que sei que nunca me vão mentir, dos que sempre me vão amar e dos que me acalmam quando fico “estouvada”. Há ainda os que poucas vezes me viram, mas que eu admiro por verem longe.

Tenho ainda na memória a íris dos que não gostam de me ver chorar (e que sabem que ODEIO chorar), dos que procuram a criança que há e sempre haverá em mim e dos poucos, muito, mas mesmo muito poucos que reconhecem o cinismo impregnado em algumas das minhas palavras. Adoro os que se chateiam comigo, que me fazem ficar triste comigo própria, que me fazem pensar que ODEIO ficar triste e que no dia seguinte me aconchegam num abraço que me faz sorrir e pensar que AMO sorrir.

Tenho sempre comigo as pupilas repletas de partilhados guilty pleasures, os olhares a pedirem feedback, mas que nem precisam que eu pestaneje para que o recebam, as córneas de quem compartilha aquele único momento.

Depois… os que não quero ver, porque não preciso, porque não quero, porque tenho os olhos de quem me chama pedante intelectual e os de quem me aponta todas e mais algumas manias. Para que preciso eu de mais quando tenho os vossos?

Sou filha de pai e de mãe… e que grandes pais. Da mãe herdei o género e a bondade, do pai… bem, do pai seria tudo o resto, não fosse eu também vossa “filha”. E sou vossa “filha”, essencialmente, porque sou filha única de pais separados desde muito cedo. Nós que pertencemos a esta categoria, somos todos muito filhos uns dos outros. Dos biológicos vou herdar tudo aquilo que alguma vez eles e eu poderíamos desejar, o MEU caminho. De vocês… os passos que farão com que não percorra o MEU caminho sozinha. :)

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Something shy about me


Shy that Way: Jason Mraz and Tristan Prettyman

terça-feira, 15 de abril de 2008

Orgulhosamente pecadora, mas nem tanto assim!

“Innocent? Is that supposed to be funny? An obese man... a disgusting man who could barely stand up; a man who if you saw him on the street, you'd point him out to your friends so that they could join you in mocking him; a man, who if you saw him while you were eating, you wouldn't be able to finish your meal. After him, I picked the lawyer and I know you both must have been secretly thanking me for that one. This is a man who dedicated his life to making money by lying with every breath that he could muster to keeping murderers and rapists on the streets! A woman... so ugly on the inside she couldn't bear to go on living if she couldn't be beautiful on the outside. A drug dealer, a drug dealing pederast, actually! And let's not forget the disease-spreading whore! Only in a world this shitty could you even try to say these were innocent people and keep a straight face. But that's the point. We see a deadly sin on every street corner, in every home, and we tolerate it. We tolerate it because it's common, it's trivial. We tolerate it morning, noon, and night. Well, not anymore. I'm setting the example. What I've done is going to be puzzled over and studied and followed... forever.”
É bem verdade, agora foi a vez do Vaticano seguir o exemplo. Não foi tão radical quanto este John Doe, mas que lá lhe apanhou o jeito castrador apanhou. Ou então não.

Perguntar a Bento XVI qual o seu livro de mesa-de-cabeceira seria imbecil. Já perguntar-lhe qual o seu filme preferido e arrancar-lhe a verdade verdadinha seria obra, obra para Pulitzer. Ora senão vejamos.

Jornalista (com uma lata tremenda que o levará direitinho ao quentinho Inferno) – Santo Padre, agora que os nossos leitores ficaram a saber que uma das tarefas que mais lhe apraz é ditar os artigos do L’Osservatore Romano, enquanto saboreia um arrozinho de cabidela, pode partilhar connosco o que faz nos seus tempos-livres? Vê filmes?
Santo Padre (enquanto limpa a boca e faz sinal para que lhe tirem o prato e tragam a sobremesa) – Mio Figlio, essa é una pergunta molto difficile de respondere. (Os pastéis de Belém que acabam de chegar quentinhos à mesa fazem salivar o jornalista) La verità es que io non vedo molti film. Ma que bello orologio avete voi. È un Bulgari? Mi piace los Rolex. Mi scusi, parlavamo de film. Mi piace lo Diece Ordini, con il più grande Charlton Heston. Ché forte e bello uomo. E ché corpo muscoloso. (Santo Padre come um pastel de nata de uma só dentada e nota-se uma pequena baba a cair, enquanto o seu olhar fica preso no corpo musculoso de um Heston com uma tábua na mão)
Jornalista – Calculo que aprecie os filmes dedicados a Deus, principalmente os dos anos 50 e 60, mas gosta dos mais recentes, aqueles que fazem de Deus uma entidade castradora, como Advogado do Diabo ou Seven?
Santo Padre (engasgando-se com o terceiro pastel de nata) - Mai non veduto esso. (O jornalista tenta tirar um docinho do prato, mas o Santo Padre bate-lhe na mão e deita-lhe um olhar diabólico)
Jornalista – De certeza que não viu? Então o que é que é aquilo que está em cima do leitor de DVD? Parece-me a capa do filme protagonizado pelo Brad Pitt e pelo Morgan Freeman.
Santo Padre – Quello es… es…es…non conosco che cosa è quello. Ma io posso parlare de mio libro favorito. Mein Kampf. (Assustado com o que disse, tenta resolver imediatamente o seu erro). Mein Kampf??? No, no, mi scusi, volevo dire, Mein Kampfbahn. Esso, esso, Mein Kampfbahn, perché mi piace molto il gioco del cálcio. E ora vado a fare un pisolino. Ciao.
Jornalista – Pois, pois… Estou a ver, estou.

Sem quaisquer intenções de ganhar Pulitzers estiveram a maioria dos jornalistas mundiais quando decidiram noticiar os “novos pecados mortais”. Eu, por exemplo, tomei conhecimento do caso através de uma crónica (crucificadora) na TIME, a minha mãe pela tv, outros pelos jornais, pelas rádios, pelaa Internet, etc. A notícia estava por todo o lado e fosse qual fosse o meio, o que nos chegou foi uma notícia que ou nos dava para rir à gargalhada, ou para nos indignarmos.

Comecei por rir.
De repente, além de não podermos cobiçar a mulher do outro (confesso que sempre foi um pecado que me deu jeito, visto que nunca cobicei a mulher de ninguém), de não podermos ceder à luxúria (coitado do Canibal), de não podermos comer feitos glutões (este dava-me jeito levar a sério), de não podermos olhar para o próximo como se estivéssemos bem acima dele (Mourinho vai parar ao Inferno a 200km/h), de não podermos olhar, com o sangue a ferver, para a senhorita que leva um Elie Saab ao casamento da nossa melhor amiga, de não podermos simplesmente passar por um mendigo e não lhe dar uns cêntimos dos nossos milhares de euros que temos nos bolsos e de finalmente não podermos vegetar no sofá durante todo o domingo, a ver aqueles filmes que já passaram pelo menos 20 vezes naquele canal, ainda parecia que iríamos ser castrados de tantos outros bens. Bens esses que a saber seriam: as drogas, o nosso larguíssimo buraco do ozono, as desigualdades sociais, nomeadamente na forma de ostentação daqueles que são obscenamente ricos, aquele fígado novo que nos impediria de morrer de cirrose, etc, etc, etc. Obviamente que se instalou o pânico na sociedade.

Não chegava o Bispo Gianfranco Girotti vir com estes novos pecados, lá do pequeno estado, que ainda cá em Portugal tinha apoiantes. O Padre Vaz Pinto afirmou o seguinte, relativamente a outros novos pecados, como passar demasiado tempo a ver televisão, navegar na internet ou ler jornais "Não há dúvida de que hoje há um gasto imoderado de tempo que leva muitas vezes à grande passividade, à distracção do mais importante. Não há o melhor uso da nossa vida, tempo e amor. (...) Quem passa a vida na informação acaba por não poder intervir no resto da vida, deixando coisas mais importantes: a mulher, os filhos, o desporto, a cultura e por ai fora”. Naturalmente. Vejamos o seguinte exemplo. O português chega a casa e ouve o seguinte da sua querida esposa “ Olá querido! Sabes, hoje fui ao mercado e os preços estão pela hora da morte, preciso de mais dinheiro amanhã. Já para não falar que até terça tens de pagar a prestação do carro, da casa e o colégio dos miúdos”. “ Pai, pai quero a nova PSP para os meus anos e não queria ser eu a dizer-te isto, mas o Benfica perdeu hoje com a Académica por 3-0.” Desolado com a vida que tem pensa “ Vou ver um filme na TV para ver se me distraio. Ai, não posso que é pecado! Ai que se morro vou para o Inferno! O melhor é ir ler as escrituras.” Claro, as escrituras além de lhe darem o dinheiro para pagar a casa, o carro, a educação dos filhos ainda vão fazer com que o Benfica venha a ser campeão.

No entanto, parecia que ainda havia alguém são na Igreja. D. Januário apelidou de ridículas as novas “leis” do Vaticano. “Se assim é, então eu sou um grande pecador. Leio muitos jornais, navego na ‘net’ o tempo que for preciso e vejo televisão, como toda a gente. No limite, há ‘defeitos’ em tudo. O futebol, por exemplo. Também pode ser um pecado. O dinheiro que se gasta num bilhete podia ser dado aos pobres. Até em gestos simples encontramos, se quisermos, situações pecadoras. Um indivíduo que passeia à beira Tejo, se calhar, devia estar com a tia no hospital ou a fazer companhia aos netos”.

Entretanto (finalmente) comecei a pensar que existia algo de errado nesta história toda, que a comunicação tinha falhado certamente. E foi quando fui ler o L’osservatore Romano, isto para fazer jus ao meu novo apelido de pedante intelectual. E eis senão quando… passei rapidamente ao segundo sentimento: o da indignação. Indignação com a minha pessoa, por ter feito o juízo fácil.

O Bispo Gianfranco Girotti como qualquer agente comercial vende o seu produto. Numa entrevista em que foram focados vários pontos, nomeadamente o papel de alguns órgãos do Vaticano, da visão dos fiéis relativamente à Igreja actual, abordaram-se as novas formas de pecado. Girotti fala na globalização e no cariz social que o pecado ganha. O que ele faz é uma chamada de atenção ao mundo e é também a tentativa de recuperar terreno, agora que os católicos passaram a ser o segundo maior grupo religioso do mundo. Quem é que, no seu perfeito juízo, não acha que é uma irresponsabilidade incrível o fosso social que se está a criar nas sociedades? Quem é que quer continuar a alimentar os desastres ecológicos? Quem é que acha que o Homem está cada vez mais altruísta? A meu ver não me parece que venha mal ao mundo por falarmos na responsabilidade social que cada um de nós deve ter.

Seguidamente, voltei a rir, mas um riso triste.
Se até aqui não via nada de errado nas palavras do Bispo, obviamente que não defendo que esta chamada de atenção se registe em campos como o da bioética e da liberdade pessoal (pelo menos naquela que não esbarra na liberdade pessoal do Outro). Aqui denuncio o meu carácter ateu e afasto-me galacticamente das crenças católicas. A negligência que é apontada, pelo Bispo, relativamente à ecologia e à justiça social é exactamente a mesma que a Igreja comete em relação às questões da investigação de células estaminais, da procriação medicamente assistida, da clonagem terapêutica, do uso do preservativo, entre muitas outras. No meio disto tudo, nem sequer vou perder tempo a dissertar sobre a hipocrisia que ficou impregnada na expressão obscenamente rico.

Os espelhos por terras italianas partiram-se há já muitos séculos atrás e o mesmo aconteceu com os binóculos que avistavam África. Se a nova forma de pecado e a globalização fazem o Vaticano reflectir nas novas repercussões sociais, porque não o fará agir e dar uma oportunidade a si próprio? E consequentemente aos seus fiéis? O grande dogma da Igreja é pensar que é o mundo que tem que se adaptar a ela e não o contrário. Enquanto assim for não haverá chamadas de atenção suficientes que a possam chamar à razão, nem indulgências infinitas que a possam salvar, porque o risco maior é ela desaparecer e não os seus discípulos fugirem dela.

O Papa afirma que se está a perder a noção de pecado e eu não poderei concordar mais com ele. Esperemos é que Deus, um dia destes, não olhe para o Vaticano e o veja como uma Sodoma ou uma Gomorra. Se tal acontecer apenas tenho um pedido: por favor Salve a Capela Sistina.